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Problemas na equação da escola da vida

    Pisco os olhos, mais uma vez, com mais força, numa tentativa de assear a vista. Quando foi que tudo ficou tão amassado? O cisco de tempo que atrapalhou minha vista deve ser bem graúdo, isso sim, pois que meses se passaram e de repente estamos aqui, entre expectativa, alegria, ansiedade e algumas-muitas confusões e novidades, com pequenas pinceladas de angústia, medo...      As últimas semanas foram de pó, muito pó, para todo lado. Na minha expectativa seriam só alguns dias, dois ou três. Acertei no número, errei na perspectiva: três, sim, porém três semanas. E quando três dias viram 21 dias, a conta não fecha, porque o resultado deveria ser aquele exatamente calculado e planejado e manejado no calendário. Como que pintar 5 paredes se transformou em quebrar três para reparar infiltração? Como que o banheiro, enciumado da dedicação do pedreiro com os outros cômodos da casa, anunciou a sua birra, e só se deu por satisfeito depois de ter uma parede toda quebrada...

Para minha mãe

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Senta que lá vem história. Só não sei por onde começar a contá-la. Pelo começo, com os encantamentos e paixões, pelo meio, com as dores e rupturas, ou por mais recente, pelos aprendizados e reencantamentos, alegrias, durezas? Acho que eu não sou a única que tem dificuldade para tentar resumir um pouco dessa relação filha-mãe. Talvez este seja um bom começo: deixei de ser uma pessoa que cultiva as relações virtualmente, que nutre afeto e carinho pelas telas, pelas redes sociais, já fazem alguns anos. A justificativa é complexa e íntima. Tem fundamentação espiritual, política, filosófica, e não me disponho a falar sobre isso por aqui, aliás faz parte daqueles assuntos que a gente tem só conosco mesmas, sabe? Fato que este talvez seja um marco na minha relação com a mamãe (e com tanta gente, quase todo mundo que tem este hábito e este gosto). Muitas vezes eu preferi fazer minhas cartinhas ou cartões pintados, desenhados, recortados e costurados a mão. Mas dessa vez senti v...

não era

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Alegria cotidiana

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Urgência de Viver, Urgência de Ser

 É urgente inventar  Novos atalhos Acender novos archotes E descobrir novos horizontes. É urgente quebrar o silêncio Abrir fendas ao tempo E, passo a passo, habitar outras noites Coalhadas de pirilampos. É urgente içar Novos versos Escalar novas metáforas E trazer esperanças Recalcadas pela angústia. É urgente partir sem medo E sem demora Para onde nascem os sonhos Buscar novas artes de esculpir a vida.”  Armando Artur (Poeta Moçambicano)
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  Meu cabelo, desde sempre, foi ralinho. Fino que só.  Aliás, nunca se intimidou do ralo, tem meses que me desafia, parece que quer provar para mim mesma a minha impotência diante da vida, sobretudo da minha. Babosa, vitamina, simpatia, shampoo. Nada. Quando quer, cai tanto que só Deus sabe o milagre de eu não ficar careca.  Talvez seja por isso. (Porque eu vivo tentando encontrar respostas?) Tá bem, pode não ter nada a ver.  O fato é que nada mais desafiador e prazeroso que os cabelinhos das bonecas que costuro.  Fio a fio.  Horas a fio, privilégio.  Agradeço. 

30 anos desmanchando nós

Estou fazendo uma boneca muito especial, e agora chegou a parte mais trabalhosa da boneca: fazer o cabelo. Nas pontas dos pés faço a arriscada manobra cotidiana: pegar a cesta de lãs da última prateleira. Corpo inteiro esticado, as pontinhas dos dedos fazer o convite para a cesta escorregar, devagarinho, para minhas mãos. Há quem diga que sou preguiçosa "pegue um banquinho Janaina". Há quem diga que sou descuidada "você não liga se cair tudo?". Sempre há alguém pra dizer algo, né? Me falta coragem, ou tempo, ou interesse?, de perguntar para essas pessoas se elas conhecem essa sensação de esticar-se inteira, de sentir os tendões da batata da perna até os das falanges distais, e a curiosa sensação de perceber a respiração quase paralisante enquanto todo o corpo pulsa a atenção em manobras arriscadas, Ah, é isso: não quero ser mais uma pessoa das que sempre tem algo para dizer. Por isso tenho preferido viver minhas aventuras assim, eu comigo mesma, quando ninguém vê.  ...

Diminua a velocidade do Natal, evite acidentes.

Quero uma infância que celebre aquele Natal antes da dominação da cultura do consumo. Quero que s crianças aprendam a viver com calma, aproveitando o momento presente, elas são nossas mestras nisso, percebem coisinhas do instante que nós, com nossa cabeça sempre acelerada, raramente percebemos.  De repente, já é Natal em um monte de lugar. Muitos que acessam meus textos pertencem a uma realidade que provavelmente os preços dos presentes não importam muito, pois Natal é época de presentear e agradar quem amamos! Minha pergunta é: mas e o preço de não pisar no freio e questionar como as coisas tem sido atropeladas, como estamos cada vez mais distante de vivências ritualísticas, belas, agradáveis, de um tranquilo e atento?  Bom, para isso não tenho respostas. Mas tenho inúmeros relatos de famílias de alunos que se aprofundaram numa perspectiva mais crítica desta nossa realidade, e se comprometeram na busca por uma educação que promova mais saúde do que doenças.  Para que com...

Segredo

"Um livro de poesia: Crítica social e ilustração Ou: bebedeiras da boemia" - Contou, com voz baixa e mansidão Não aceitou café Álcool nenhum bebe mais Nos saudamos, então, de cafunés Desembarcamos nossos corpos no cais Mar manso, desconhecido Prazer em desbravar Se deixou ser conduzido O que é tão raro  gostoso de encontrar Aqui deitada, quase a dormir seu cheiro me evoca Não posso mentir Tua grandeza me provoca

Tem planta no ser tão

Estiagem Meus olhos são a única nascente Silêncio líquido escorre na face Se fácil fosse Eu quereria? A ponte já não serve para nada Não há o que atravessar Tudo está seco Aa fissuras estão expostas A única fluidez É a que escorre de meus olhos Silenciosas gotas-dúvidas salgadas de sonhos estiados A ponte virou lembrança, afeto Quem quiser passar, que vá pelo chão, Sólido, duro, fissurado Porém sempre desejado de paixão Dizem que lá do outro lado milagres aguados plantaram mudanças não duvido que desses meus olhinhos boa colheita eu faça das andanças Estiagem Estes agem Quem segue desbravando de-certo comigo?

Professora Água

Não precisa ter conhecido cachoeira nem ter visto o mar.  Mas precisa ter água encanada no chuveiro  (nem todo mundo tem, é bom lembrar) Fato é que a Água é a professora E eu, a sua aprendiz Toda a água que sai do chuveiro, tão uniforme, tão precisa, tão constante Se desfaz em meu corpo.  Meu corpo é terreno irregular Minha mente é a água Meu corpo é minha estabilidade Irregular feito o corpo (mas transparente feito a água) Meus pensamentos são ora as miniquedas d'água que cachoeiram dos meus seios, ora as gotas que respingam para todos os lados (não encontro a nascente nunca encontro a nascente da correnteza brava dos meus estados mentais) Mas descobri que toda vez que me banho Posso aprender (feito ondas é meu aprendizado) Que há de se entender Que na constância mora a impermanência Os pensamentos fluem  feito gotas, correntezas e cachoeiras O fluxo é o mesmo mas a expressão instável compõe este rio intransponível que é nossa existência E não venha me falar  q...

Cabeça pião fio atenção

Tem dias que acordava com a cabeça a milhão girava, girava, girava parecia estar jogando pião Era o tempo todo tentando Fazer o pião rodar O fio, dizem, são as metas, propósitos, sua essência! Se você não as sabe, não vai funcionar Girar o pião até que aprendi Meu desafio era parar Isso ninguém me ensinou Só ensinaram minha cabeça a rodar Quanto nó eu dei na corda Tentando regular a'tensão Paradoxalmente, fui encontrando meu eixo Toda vez que girava a minha cabeça pião E de tanto que a cabeça girava dia sim, e outro também Fui aproveitando, praticava Desenvolver a atenção focada... amém!  Se antes girar pião me nauseava Hoje já sei girá-lo sem tal sentença Renasci uma pessoa brincante com uma única regra de ouro:  regular o fio da presença!  -  Atenção na tensão se apertar muito: pode estourar do contrário, pode embramar Dica de ouro: regular o fio da presença, cuidar das emoções do avesso não deixar dar nó cego se necessário, um recomeço remendando os buracos do ego...

acon-Teceu e com-fiei!

    O causo sucedeu-se assim: estou na aprendizagem da costura de bonecas e experimentação pessoal de tinturas, costuras e texturas.     Então fui lá, costurar o molde das primeiras bonequinhas. Eram duas que risquei. Até que eu estava gostando, cheia de empolgAção! Foi então que, chegada a hora de costurar as mãozinhas e os pézinhos, senti meu corpo esquisi-estar. Tão delicada eram as curvinhas que parecia que não ia dar não! Mas sou teimosa, sou sim. Aliás, dizem de mim: persistente (das boas causas)! Cá entre nós: a persistência durou só o primeiro corpinho. O segundo, com a mesma certeza de céu carregado de nuvem preta que resolve cair: não faço mais na máquina! Melhor costurar essas partezinhas na mão que é pecado pensar palavrão costurando boneca de criança brincar.      Pra quem nunca costurou talvez nem nunca entenda. Talvez dê pra comparar com aquele momento que você está tendo toda aTenção do mundo para não raspar seu carrinho, durante uma ba...

Fazer boneca e fazer conhecimento

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Estou a quase 9 semanas vivenciando o fazer da Boneca Waldorf, num curso on-line ministrado pela Professora Doutura Nina Veiga, a quem eu tive a grande felicidade de encontrar virtualmente por esse oceano imenso internáutico.  O caminho é longo e tem muitas sinuosidades. Escalamos montanhas conceituais, tropeçamos em pedrinhas e e outros desafios atitudinais e muitas vezes perdemos o fôlego e as vistas nas intempéries atitudinais. Que bom que tem reinado em mim essa força que, a cada vez que a respiração aperta e a vista embaraça, como que numa resposta a tal força, uma clareza e um fluir ainda maior e melhor vibram em minha alma. Hoje foi assim. Trabalhando com a bonequinha, tentando finalizar seu casaquinho de tricô, um feixe de luz ilumina um canto tão escuro e custoso de minha existência. O canto onde moram minhas crenças mais caras quanto a minha capacidade de aprendizagem e de construção de conhecimento. O canto escuro e frio que, de tão potente, paralisa meus movimentos em d...

Casa viva ou vida de revista?

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Queria poder conversar com cada pessoa que nesses tempos de isolamento social têm vivido pressões e cobranças (pessoais ou de terceiros) com respeito a uma casa organizada e perfeitamente limpa. Já não bastasse todas as angústias que este tempo nos trás, muitos de nós estamos presos a um padrão de organização, limpeza e estética que é muitas vezes paralisante.  O que eu pergunto pra quem se percebe nessa situação:      De onde vem esta angústia? Ou melhor: de onde surgiu estes padrões que temos como referência da correta organização e limpeza da casa? E ainda mais importante, para os que têm filhos: o que significa uma criança dentro destes padrões?      De manhã estava na minha tentativa diária de meditação, quando fui presenteada por estas reflexões: como observamos, como comprovamos a VIDA em suas diferentes manifestações? O que, numa última instância, confirma a vida e diferencia da morte?       Ao olhar para uma pessoa, aparent...

Ser professor em tempos de crise...

(crise sanitária, crise econômica, crise de humanidade, crise de valores) É Abril de 2020 e quero deixar um registro para um futuro longe, onde eu possa revisitar os momentos de minha vida e pensar "nossa, que tempos terríveis aquele!".  O fato é que estamos vivendo a maior crise sanitária da história, onde o COVID-19 veio com força inigualável, capaz de parar praticamente o mundo todo e, infelizmente, causar a morte de mais de 200.000 pessoas em menos de 3 meses. E, como é de se esperar, causar um grande reboliço na esfera econômica do mundo todo. É aqui que precisava chegar, com uma lupa para o setor educacional, ampliando 100x nas escolas particulares: frente a uma grande discussão de como superar a futura crise econômica que nosso país enfrentará (que já estava anunciada antes mesmo do vírus), começam também as estratégias para pensar a sobrevivência das escolas. São muitas questões que atravessam as escolas particulares e que merecem suprema importância: é possível r...

Brincar com poesia #1

No quintal de casa, a natureza descansa. Pedrinhas e entulhos enterrados no chão, cascas, sabugos, folhas em decomposição. Minha imaginação, entretanto, é puro adubo. Não tenho um quintal paisagístico, porque a paisagem para mim precisa ser viva, espontânea, cíclica. Acho lindo os quintais assim, com grama e flores planejadas. Mas descobri a lindeza também dos matinhos que crescem e revelam flores mais lindas do que da própria floricultura! Também descobri remédios (que insulto chamá-los de mato. Deveríamos chamá-los de vivo!). Aprendo muitas coisas ao observar e vivenciar esses desperdícios, estou com Manuel de Barros sobre a abundância que eles são. Assim eu me alimento, não só ao corpo, mas minha alma e me espírito. Com poesia, simplicidade, imaginação. E enquanto tiver alimento em minha casa, também terei para dividir. Minha esperança é que,essa brincadeira de fazer vídeo com poesia e desperdícios de quintal possa alimentar um pouquinho vocês. Estar neste momento de isolam...

Cacho de algodão

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A missão do final de semana era apaziguar as saudades de Barão Geraldo, distrito de Campinas que morei durante 8 anos, enquanto estudava e, depois, trabalhava. Oito anos. Oito: o número que, por si, é uma leminiscata , e que fala deste casulo onde pude me metamorfosear nesta que sou hoje, sempre inacabada. As saudades que precisava serenar não eram só das pessoas, mas sobretudo dos processos que me  mantinham viva, que davam conta de sustentar a ebulição universitária, a frieza acadêmica, o cardápio quase infinito para degustar a cultura nascente e saborosa de Barão. Era muita coisa. E descobri que no cultivo da horta, e depois no fazer agroflorestal, meu corpo transformava-se ora em um veículo de escoamento de todos os excessos que chegavam, ora na própria potência da criação e manutenção da vida. Plantando eu descobri o tempo das estações, o templo das variações climáticas. Descobri minha pequenez diante de tantos insetos, e fui colocada à prova de meus  princ...

Minha missão: plantar

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