Cacho de algodão
A missão do final de semana era apaziguar as saudades de Barão Geraldo, distrito de Campinas que morei durante 8 anos, enquanto estudava e, depois, trabalhava. Oito anos. Oito: o número que, por si, é uma leminiscata, e que fala deste casulo onde pude me metamorfosear nesta que sou hoje, sempre inacabada.
As saudades que precisava serenar não eram só das pessoas, mas sobretudo dos processos que me mantinham viva, que davam conta de sustentar a ebulição universitária, a frieza acadêmica, o cardápio quase infinito para degustar a cultura nascente e saborosa de Barão. Era muita coisa. E descobri que no cultivo da horta, e depois no fazer agroflorestal, meu corpo transformava-se ora em um veículo de escoamento de todos os excessos que chegavam, ora na própria potência da criação e manutenção da vida.
Plantando eu descobri o tempo das estações, o templo das variações climáticas. Descobri minha pequenez diante de tantos insetos, e fui colocada à prova de meus princípios éticos referentes a vida e aos ecossistemas (seria tão mais fácil jogar veneno)...
Descobri o quanto apegada era, e a dificuldade de lidar com a morte Entendi que a Lua é soberana na qualidade do nosso cultivo, e que da mesma forma que ela rege o ciclo das plantas, ela rege também a nós.
E descobri, sobretudo, o tanto que o quintal, o terreno abandonado, a margem do rio... quanta possibilidade de vida há nestes lugares! E quanto daquilo que consumimos é possível cultivarmos. E se possível não for, como é delicioso o exercício de pensar nas substituições possíveis dentro deste princípio: plantar para usar.
Enfim. Este foi o tesouro que encontrei no dia que fui serenar as saudades, passeando na agrofloresta que organizamos numa área na frente da minha casa e também de outros amigos (quem sabe um dia falo mais sobre isso aqui). Achei tão especial! Nunca tinha visto uma árvore com cachos assim.
Colhi e trouxe para casa. Desde então, deixei o cachinho num cantinho especial na parede do ateliescritório, esperando o momento propício para nos relacionarmos.
Este momento chegou. E em breve, compartilho os próximos passos dessa nova paixão.
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