Fazer boneca e fazer conhecimento
Estou a quase 9 semanas vivenciando o fazer da Boneca Waldorf, num curso on-line ministrado pela Professora Doutura Nina Veiga, a quem eu tive a grande felicidade de encontrar virtualmente por esse oceano imenso internáutico.

O caminho é longo e tem muitas sinuosidades. Escalamos montanhas conceituais, tropeçamos em pedrinhas e e outros desafios atitudinais e muitas vezes perdemos o fôlego e as vistas nas intempéries atitudinais. Que bom que tem reinado em mim essa força que, a cada vez que a respiração aperta e a vista embaraça, como que numa resposta a tal força, uma clareza e um fluir ainda maior e melhor vibram em minha alma.
Hoje foi assim. Trabalhando com a bonequinha, tentando finalizar seu casaquinho de tricô, um feixe de luz ilumina um canto tão escuro e custoso de minha existência. O canto onde moram minhas crenças mais caras quanto a minha capacidade de aprendizagem e de construção de conhecimento. O canto escuro e frio que, de tão potente, paralisa meus movimentos em direção, por exemplo, a desenvolver um metrado, ou simplesmente de conversar com outras pessoas que não sejam aquelas envolvidas diretamente comigo em meu trabalho, minha compreensão sobre a infância, sobre as crianças, suas relações... Neste canto escuro moram fantasmas que sempre me cochicham "você não consegue aprender no que toca a conteúdos. Você não consegue desenvolver um pensar claro. Você não é capaz de desenvolver uma pesquisa. Você não conseguira construir conhecimento".
E sem mais nem menos, ao fazer o tricô, uma luz clara e calorosa ilumina este canto de minha alma. O que vejo? Vejo o quanto significativo, profundo e produtivo tem sido o fazer da boneca. Me dou conta que na produção da boneca tenho me entregado com confiança, com serenidade, com calma. No fazer na boneca, e agora também percebo que no fazer do pão, no fazer no jardim, no fazer de uma costura intuitiva, nenhum desses processos se aproximam do canto escuto do conhecimento. Porque o fazer com as mãos me permite a visualização material e concreta do que estou fazendo. Ainda mais agora, nesse tempo de pandemia, sinto inclusive que esse processo está ainda mais sensível a perceber as delicadezas que fazem toda a diferença. Não combina ansiedade, não combina pressa, não combina quantidade.
E percebo que os fantasmas do canto escuro me fizeram acreditar que para produzir conhecimento, produzir uma pesquisa, por exemplo, o caminho seria diferente, deveria ser mais rápido, deveria ser mais simples, e que se eu não tenho este "desempenho" que o mundo das imagens aparentam, eu não seria capaz. E de repente, ao me debruçar na leitura sugerida por Nina Veiga acerca do desenvolvimento infantil, me vejo há dias com o mesmo texto na mão. Vai, volta, risca, escreve, rabisca, desenha. Pensa, pensa, pensa. De repente, a partir dessa vivência textual de riscar, recortar os principais trechos, costurar com vivências de minha prática enquanto professora... Descubro em mim um caminho, um processo, com relação ao conhecimento em si. Uma nova perspectiva de explorar o canto onde, antes, era sombrio e frio. Perceber que esse canto escuro não é uma doença de minha alma, mas é um cenário montado por um sistema de crenças e valores de competição, de rapidez, de pressa, e que, curiosamente, eu sou radicalmente contra.
Ainda que já tenha estudado alguns conteúdos, embasados a Antroposofia, sobre estes processos do fazer, do sentir e do conhecer, foi a primeira vez que senti essa compreensão de fato em meu corpo e em minha alma.
E tenho certeza que, com a prática do fazer da boneca, ganhamos habilidades que vão refinando nosso processo manual e quem sabe até nos dão possibilidades de construir bonecas próprias, com elementos nossos. O caminho, daqui em diante, é lembrar que também assim se faz o caminho e a produção da pesquisa, do conhecimento....

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