Casa viva ou vida de revista?


Queria poder conversar com cada pessoa que nesses tempos de isolamento social têm vivido pressões e cobranças (pessoais ou de terceiros) com respeito a uma casa organizada e perfeitamente limpa. Já não bastasse todas as angústias que este tempo nos trás, muitos de nós estamos presos a um padrão de organização, limpeza e estética que é muitas vezes paralisante. 


O que eu pergunto pra quem se percebe nessa situação:

    De onde vem esta angústia? Ou melhor: de onde surgiu estes padrões que temos como referência da correta organização e limpeza da casa? E ainda mais importante, para os que têm filhos: o que significa uma criança dentro destes padrões?

    De manhã estava na minha tentativa diária de meditação, quando fui presenteada por estas reflexões: como observamos, como comprovamos a VIDA em suas diferentes manifestações? O que, numa última instância, confirma a vida e diferencia da morte? 

    Ao olhar para uma pessoa, aparentemente olhamos para uma unidade, mas sabemos que esta unidade está preenchida de multiplicidade. Nossa aparência externa pode ser organizada, limpa, bonita, mas o que acontece dentro? São inúmeros processos vitais (ou ainda mais especificamente respiração, nutrição, absorção, secreção, manutenção, crescimento, reprodução), acontecendo de diferentes formas e simultaneamente em todo o corpo. Enquanto muitas células se reproduzem, outras estão secretando, outras ainda absorvendo... A bem dizer: é pulsar contínuo. Interiormente, o corpo vivo é múltiplo,  variado, um tanto bagunçado, mas uma bagunça sincrônica e vitalizante. 

    De repente, aquele mesmo corpo que podemos ver como uma unidade, bonita, apresentável, limpa... De repente, este corpo interiormente passa a ter tudo parado. Nenhuma bagunça. Nenhuma sujeira de excreção, nenhum objeto novo vindo da secreção. Não tem em nenhuma parte deste corpo bagunça. Tudo está estático, parado, e porque não até pensar "limpo", uma vez que não tem mais nenhuma sujeita pra entrar ou sair. Que corpo é este? Em que situação temos esta realidade? 

    Me perdoem se a metáfora foi um demasiadamente dura. Mas achei muito clara. Achei simbólico estas reflexões chegarem enquanto tentava meditar. Senti que deveria compartir, apesar da dureza. E enfim, mais uma vez confirmo minha hipótese de que uma vida VIVA é uma vida da qual não temos controle sobre tudo.

    A estética que muitos de nós tivemos como formação é uma estética paralisante Cada coisa em seu lugar, cada detalhe da decoração pensado e planejado no computador, cada cor da casa estruturada a partir da paleta de cores que, uma vez estabelecida, não permite futuras mudanças, adaptações. Nós fomos preenchidos por uma ideia de casa pronta, arquitetada e planejada por alguém, e não a partir planejada e decorada a partir nós, da vida, da criatividade, de nossos próprios processos. Talvez agora seja a hora de repensarmos: quais tem sido as escolhas que tenho feito? Escolhas que nascem da compreensão do que é a vida, ou que nascem de um sistema que quer justamente controlar e ditar padrões, mas que em verdade são praticamente insustentáveis? 

    Por fim, e uma casa com crianças? O que significa uma casa com crianças? Muitos de nós acreditamos que as crianças "são o futuro de nossa humanidade, e a partir delas o mundo pode ser diferente". Estamos prontos para encarar, então, a construção de nossa vida, de nossas relações, a partir da criança? Das necessidades que elas apresentam, daquilo que seu próprio desenvolvimento revela? Pois que vivemos uma sociedade que, hegemonicamente, pensa as crianças a partir das necessidades dos adultos. E são inúmeras as pesquisas e estudos que mostram as consequências desta relação.

    Eu desejo que nós possamos conversar muito sobre isso. Que as pessoas possam se sentir confortáveis e seguras para sair do senso comum do que é uma casa "boa, saudável, correta perante ao que os outros vão pensar", e consigam conversar sobre o que seria, então, essa casa viva e pulsante, essa casa que seja símbolo de adaptabilidade, de aprendizagem contínua, de afeto, de pesquisas, de criação. Que possam falar sobre suas compreensões do que significa "limpeza", se é varrer, passar pano e tirar pó todos os dias, três vezes por semana, uma. Se é lavando toda a louça a cada refeição, se duas vezes por dia. Se é a mulher, tendo de pensar e cuidar de tudo isso sozinha, porque afinal das contas o marido é quem faz o trabalho que garante a entrada do dinheiro, e talvez seja injusto pensar em qualquer divisão de tarefas domésticas, ou se é possível pensar em espaços de diálogos na relação onde ambos sintam-se abertos para diálogo, escuta, e de repente novas possibilidades de se pensar a casa para melhor bem-estar de todos. 

E eu garanto: dá pra viver tudo isso, uma casa bonita, aconchegante, acolhedora, e com toda a bagunça que uma vida viva e pulsante apresenta.

Dá pra pensar numa limpeza sem tornar-se refém dela, mesmo com criança, bicho, planta. Que nossas casas sejam como nós: uma unidade organizada e aparentemente controlada para quem vê de fora, mas que seja cheia de vida e de processos por dentro!!!!! Viva!!!

Deixemos para as revistas ou para as redes sociais essa casa estática, paralisada. Aqui não! 

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