30 anos desmanchando nós

Estou fazendo uma boneca muito especial, e agora chegou a parte mais trabalhosa da boneca: fazer o cabelo. Nas pontas dos pés faço a arriscada manobra cotidiana: pegar a cesta de lãs da última prateleira. Corpo inteiro esticado, as pontinhas dos dedos fazer o convite para a cesta escorregar, devagarinho, para minhas mãos. Há quem diga que sou preguiçosa "pegue um banquinho Janaina". Há quem diga que sou descuidada "você não liga se cair tudo?". Sempre há alguém pra dizer algo, né? Me falta coragem, ou tempo, ou interesse?, de perguntar para essas pessoas se elas conhecem essa sensação de esticar-se inteira, de sentir os tendões da batata da perna até os das falanges distais, e a curiosa sensação de perceber a respiração quase paralisante enquanto todo o corpo pulsa a atenção em manobras arriscadas, Ah, é isso: não quero ser mais uma pessoa das que sempre tem algo para dizer. Por isso tenho preferido viver minhas aventuras assim, eu comigo mesma, quando ninguém vê. 

Não tem lã suficiente. Puts, sair comprar? Ah! Achei aqui, esse pedacinho. Tem outro aqui. A antiga polãina que nunca terminei. O pequeno projeto de cachecol. Se eu desmanchar, talvez dê. Muito trabalho, Janaina. Para que? R$18,00 um rolo de lã. Vai comprar! Não, não vou, vou desmanchar. Depois se não der, eu compro. Síndrome de escassez, lembra? Se liberte disso, Janaina. Está no seu passado. Não precisa mais disso, vai, compra e resolve. Mas será? Não, eu vou desmanchar, faz tempo que não tem uso algum. 

Sempre há alguém pra dizer algo. Resolvi desmanchar os pedacinhos. Quero que a criança que receba essa boneca receba a minha potência de decisão: eu vou desmanchar. Se posso reaproveitar, porque não fazê-lo? Vai levar mais tempo sim. Porque fazer tudo com tanta pressa? Ah, não, provavelmente não consigo inserir no preço da boneca as horas desmanchando um trabalho antigo. Mas dá mesmo para assumir completamente quanto vale um trabalho a partir do dinheiro? Pacto com a probreza, síndrome de escassez, medo de abundância. Sempre há alguém pra dizer algo. 

Sigo aqui, desmanchando. Estou feliz pela escolha, tá dando bastante lã, se bobear não preciso sair buscar. O que é isso? Um nó. Paciência. Devagarinho vai saindo. Eu lembro bem quem deu... Outro nó: que coisa! Esse foi aquela outra pessoa... Nó. Com certeza a origem da palavra "nós" está aqui, nos fios da costura: quantos nós são dados, em nós ou por nós, ao longo de nossa vida? 

Sigo, desatando cada um com calma, paciência. Sempre tem alguém pra dizer algo. Tem nó que parece cego, mas consegui convencê-lo de que hoje eu vejo tudo e muito bem: não existe nenhuma síndrome de escassez, pacto de pobreza ou negação de abundância na minha vida. Existe sim uma mulher que decide, com plena consciência, sabedoria e conhecimento, construir uma vida construída, costurada, lixada, pintada, cozinhada, preparada por mim. Hoje, minha celebração de 30 anos de cultivos e colheitas. Hoje, mais do que nunca, tenho tranquilidade e confiança em costurar e desmanchar quantas vezes forem necessário. Hoje já consigo ouvir tudo o que todo mundo sempre tem para dizer sem deixar me alfinetar tanto. Minha última década foi basicamente aprender a controlar a tensão da linha. Quantas vezes deixei estourar ao querer apertar tanto para nunca deixar descosturar? E quantas vezes, por medo, deixei a costura frouxa, inconsistente? 

Falta pouco.  Vai ficar bonito o cabelo. Vou fazer volumoso, adoro cabelo volumoso. Calma, termina de desmanchar. Atenção no presente. Outro nó. Este está difícil... E se cortar fora? Pega a tesoura e corta. Mais rápido... Calma, porque a pressa? O mundo vai acabar amanha? E se acabar? Ai, que pensamento, Janaina... Bom, eu já não duvido de nada... O que acontece se tudo parasse? Se de novo todo mundo não puder sair? E se as coisas fossem um pouquinho piores? Será que é minha síndrome de escassez? Não, deve ser a falta de abundância. Ou o pacto da pobreza? 

Mais uma década começando. Devo voltar pra terapia? Conversar com meus terapeutas sobre todos esses diagnósticos? Será que eu melhorei? Estou curada? Janaina, atenção no que está fazendo, pare de ficar viajando... Sempre viajando... Precisa terminar de desmanchar essa peça. Tem um lindo cabelo de boneca lhe aguardando. Ah, depois não se esqueça de ensaiar aquela música para o Natal, na flauta. As flores do jardim, lembrou de observar aquela branca linda que só floresce a noite? Ah, o milho, precisa colher o milho do quintal, já está passando da hora. E a mandioca? Vou colher no final de semana, fazer aquela chipa de mandioca que vi. Ah, não posso esquecer de terminar aquela pintura em aquarela. E terminar de costurar as cortinas e toalhas novas. Xi... Lua nova! Quando vou fazer os canteiros das hortaliças? Eita! Ai, Janaina... é por isso que você vive nesse padrão de escassez... Dá pra pensar em acumular, ficar rica e viver a custas dos outros, fazendo tudo isso? 

Acabei. Hora de remendar os fios, fazer o novelo, tecer o cabelo. Ainda bem que não saí comprar. 










Vocês conhecem a síndrome do vazio? É, parece que é algo assim: você trabalha, enriquece, faz as melhores viagens do mundo, come nos melhores restaurantes,  compra as melhores marcas, assiste aos melhores filmes, posta as melhores fotos... E não importa o que faça, só uma conta a-com-tece: vazio. Nada na mente, nada nas mãos, nada no coração. Uma constante sensação de vazio, de falta de potência de vida, criativa? Parece que tem algo a ver com falta de tempo, falta de oportunidade de parar, fazer coisas improdutivas, não valoradas monetariamente, sem sentido... Credo, ainda bem que esta síndrome ainda não conheci. E como ousam dizer da minha escasses? 

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