Ser professor em tempos de crise...
(crise sanitária, crise econômica, crise de humanidade, crise de valores)
O fato é que estamos vivendo a maior crise sanitária da história, onde o COVID-19 veio com força inigualável, capaz de parar praticamente o mundo todo e, infelizmente, causar a morte de mais de 200.000 pessoas em menos de 3 meses. E, como é de se esperar, causar um grande reboliço na esfera econômica do mundo todo.
É aqui que precisava chegar, com uma lupa para o setor educacional, ampliando 100x nas escolas particulares: frente a uma grande discussão de como superar a futura crise econômica que nosso país enfrentará (que já estava anunciada antes mesmo do vírus), começam também as estratégias para pensar a sobrevivência das escolas. São muitas questões que atravessam as escolas particulares e que merecem suprema importância: é possível redução de mensalidades por conta do isolamento social e as escolas fechadas? É possível garantir permanência das famílias que tiveram suas vidas financeiras afetadas de tal modo que não poderão pagar mensalidade? E, para mim, a cereja do sorvete do abaxi mais azedo que já tomei: "reduzir salários do professores, porque afinal, todo mundo está sofrendo com a crise, todo mundo precisará abrir mão de alguma coisa, todo mundo será afetado".
Esse texto não é contra alguém, não é direcionado a uma pessoa. Pode parar de responder mentalmente com inúmeros argumentos, tentando explicar que qualquer coisa que esteja lhe causando incômodo lendo o texto até aqui. Este texto é contra os valores que estão escondidos por trás deste discurso, e que infelizmente são tão poderosos que sim, impregnam nossa percepção e relação com o mundo sem nós nos darmos conta.
Queria trazer um dado aqui: eu, por exemplo, desde que comecei a trabalhar em escola Waldorf, lido com famílias de classe média ou alta, o que significa que usufruem de um mínimo conforto financeiro (calma, eu sei que agora tem muito desconforto rolando. Tô falando de antes, muito antes). E fico contente porque muitas também buscam sempre priorizar o melhor ambiente, a melhor refeição, os melhores médicos, a melhor educação para suas crianças. Por exemplo, conheço um médico maravilhoso homeopata, que apesar da primeira consulta ser R$500 reais e os retornos R$200, tem tamanha qualidade que raramente questionamos este valor. É que médico bom custa isso mesmo. Uma consulta costuma durar 1 hora, ou seja: pagamos por um médico bom, porque sabemos a importância dele em nossa vida, R$500.
Da mesma maneira muitos gostam de um delicioso jantar, em restaurantes que ofereçam comida saudável e de qualidade garantida. Eu mesma já fui em almoços e jantares com algumas famílias num jantar aqui em minha cidade, comendo um bom rodízio japonês, uma pessoa gasta por volta de R$110,00 (sendo generosa, vai!). Numa janta, numa noite, que dependendo da nossa pressa pode durar até menos de 1 hora, investimos tranquilamente R$110,00. Pois bem... neste mesmo raciocínio, tem uma sorveteria incrível perto da minha casa, que um cascão recheado de chocolate + sorvete sai R$18,00. Quanto tempo você demora para devorar seu cascão? Acho que eu levo uns 10 minutos, eu amo! Então, permitam-me a insistência das horas... Se for pensar o quanto equivale esse investimento em 1 hora: R$108,00.
Agora... deixa eu contar uma coisa: os professores das escolas particulares, sobretudo as de educação infantil, costumam ganhar um salário entre R$1500 e, raríssimas escolas, R$3500... Melhor eu situar a região de onde falo, antes que algum professor das cidades ainda mais interioranas me chinguem, porque lá R$1500 é luxo! Uso como referência as cidades que trabalhei: Campinas, Limeira, Americana. Segunda coisa que preciso contar: tem muita escola que faz o registro do professor com 30h semanais, outras com 35h. Mas o que eu vejo, em verdade, é que praticamente todas as professoras trabalham 40 horas semanais, tudo bem, em suas casas, mas sempre pensando em seus alunos, no coletivo das crianças, enfim. Então vamos a tão maravilhosa continha que nos ajudará nessa história toda. Um salário de R$3500, faz de conta que esse valor cai líquido na conta dos professores, pra não ficar tão feio assim. Esta professora, que trabalha 40 horas semanais, ou 160 horas mensais, recebe POR HORA 21,87. A professora que tem o salário de R$2000, recebe POR HORA R$12,50. E as que recebem (e faço questão de incluir as auxiliares, as monitoras, porque estas não deixam de ser professoras e estar na lida com essas crianças), recebe R$9,37.
Agora um resumo, pra ninguém errar na prova:
1h de um médico: R$500,00
1h de um rodízio: R$110,00
1h de sorvete: R$108,00
1h do melhor que um professor recebe: R$21,87.
E olha o paradoxo: você pode estar achando um absurdo, um horror, que um professor ganhe por hora menos de 1/4 do que um restaurante japonês ganha. Acredito e conheço donos de escola particulares e iniciativas associativas que gostariam de pagar mais para seus profissionais. Mas aí precisaria fazer o que? Lotar uma sala com 30 crianças talvez? O famoso "melhor a quantidade que a qualidade". Mas isso não tem a ver com educação. É por causa de sistema educacional podre que temos um mundo em decomposição. E estamos tentando mudar isso, não é? Então... sobe a mensalidade! Epa!!!!!!!!!!! Subir a mensalidade? Não, isso não!
E o mais interessante: é comum uma escola receber pedido de desconto. É muito caro, né? Nunca vi dono de restaurante recebendo pedidos de desconto, nem donos de concessionárias de carro, muito menos lojas de roupa: "ah, ficou ótima esta roupa! vai ser incrível! Mas... eu preciso de um desconto. Você pode me dar 30% de desconto?".
Chega. Já deu. Desculpem. É que como já disse, escrever contra uma "ideia", contra um sistema de valores que nos invadem, que nos cegam para algumas coisas. E uma delas é: todo professor, quando escolhe essa carreira, em verdade escolhe abrir mão de sua devida valorização, para que todo o resto se mantenha bem. Quando eu escolhi ser professora de educação infantil, não foi porque não tinha outra opção. Eu já tinha minha carreira como bióloga. Mas descobri que seria, para mim, a melhor forma de preencher minha necessidade de pensar num futuro diferente: cuidando da educação das crianças da primeiríssima infância. São INÚMEROS os estudos científicos que apontam os danos de condições ambientais e sociais negativas em toda a vida posterior do indivíduo.
Eu não temo em dizer que a profissão de educador é, talvez, entre as mais importantes de nossa sociedade. A qualidade de nossa atuação pode determinar a capacidade de seu filho conseguir, ou não, lidar com as circunstâncias da vida, ter atitudes éticas e morais perante a vida, as dificuldades. Rudolf Steiner, fundador da Pedagogia Waldorf, inclusive diz que a educação e a saúde são dois conceitos inseparáveis e que se entrelaçam e permeiam o desenvolvimento mutuamente, de modo que professores e médicos teriam a mesma importância.
Mas infelizmente é isso: tivemos uma sociedade que dá mais valor para restaurante chique e sorveteria gourmet do que educação. E ainda temos que ouvir que, frente a uma possível crise, os professores precisam entender que a redução salarial é necessária, uma vez que todo mundo vai sair perdendo um pouco e ter que se doar um pouquinho.
Em termos monetários, eu já assumi sair perdendo ao escolher ser educadora. Mas eu saio perdendo mesmo, saio com falta de ar, saio quase doente, quando se perdem os valores humanos. Os valores que fazem que tantos professores tenham redução salarial, mas as compras nos deliverys japoneses continuem. Ou que provoquem a redução e demissão e professores contratados das redes municipais, sendo que o governo não está quebrado, mas tem como prioridade investir e salvar grandes empresários do que a educação brasileira.
Enfim. Tudo bem se você nunca tinha pensando em nada disso antes. Mas agora não dá pra falar que não sabe.
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