Para minha mãe
Senta que lá vem história. Só não sei por onde começar a contá-la.
Pelo começo, com os encantamentos e paixões, pelo meio, com as dores e
rupturas, ou por mais recente, pelos aprendizados e reencantamentos, alegrias,
durezas?
Acho que eu não sou a única que tem dificuldade para tentar
resumir um pouco dessa relação filha-mãe. Talvez este seja um bom começo:
deixei de ser uma pessoa que cultiva as relações virtualmente, que nutre afeto
e carinho pelas telas, pelas redes sociais, já fazem alguns anos. A
justificativa é complexa e íntima. Tem fundamentação espiritual, política,
filosófica, e não me disponho a falar sobre isso por aqui, aliás faz parte
daqueles assuntos que a gente tem só conosco mesmas, sabe?
Fato que este talvez seja um marco na minha relação com a
mamãe (e com tanta gente, quase todo mundo que tem este hábito e este gosto).
Muitas vezes eu preferi fazer minhas cartinhas ou cartões pintados, desenhados,
recortados e costurados a mão. Mas dessa vez senti vontade de trazer aqui,
tornar público. Talvez seja o distanciamento da pandemia, talvez seja minha
vontade de nutrir as relações oferecendo ao outro o que o alimenta, mesmo que
não seja a comida que eu goste de comer. Mas daí percebi minha dificuldade de
compartilhar: eu sempre tenho tanto para falar. E é meio incompatível resumir.
Tem histórias que precisam ser contadas em detalhes, porque vivemos numa
sociedade que adora recortar, medir e julgar as relações, a vida.
Mas sigo. Sigo pra te lembrar que você foi e continuará
sendo, pro resto da vida, a melhor mãe que você poderia ter sido. Não consigo
imaginar onde mudar, sabe? Por muitos anos tive muitos apontamentos neste
sentido. Quantas coisas queria que você tivesse feito diferente... Quanto sofri
porque “porque você nunca me ensinou a importância da política? Porque você só
me deu uma educação espiritual?”
Nunca foi confortável estes sentimentos. Aliás, sempre mais
dolorosos do que amorosos. Muito apoio e muita vivência foram necessárias para
conseguir não me culpar por isso, afinal: nossa sociedade está construída sobre
valores de aniquilamento e repressão. Aquilo que é diferente do que a gente
valoriza deve ser eliminado, deve ser escondido, reprimido. Foi muito difícil,
e continua sendo uma tarefa cotidiana, me despir deste condicionamento e na
prática escolher novas roupagens, onde as diferenças compõem a beleza do
desfile.
E assim seguimos. Quanto orgulho tenho de você. E como foi difícil
entender que aquilo que me preocupava não poderia ofuscar o brilho daquilo que
você emana. Sempre me preocupei com essa sua qualidade de se doar tanto para os
outros. Por muitas vezes me vi trabalhando incansavelmente para os outros, não
me valorizando, e transferindo a responsabilidade para você: nunca tive o
exemplo de saber por limite ao trabalho, nunca tive o exemplo de olhar mais
para mim do que para o outro. Honro por ter ao meu lado um companheiro que me
ajudou a perceber, por outros caminhos, o quanto nossa sociedade capitalista
naturaliza um egoísmo, um autocentramento, em face de um “bem-estar indivual”,
e o quanto somos frágeis quando o assunto é coletividade, é abrir mão do que
interesses individuais em face aos interesses e cuidados coletivos e
compartilhados.
Aos poucos, através de lentes que me ajudaram e ajudam a
entender e questionar esta sociedade, também fui percebendo o quando você, sem
nunca falar de política, e sem continuar sabendo falar de nada sobre o assunto,
o quanto você é o exemplo vivo da práxis, do fazer cotidiano, da vida vivida. De
repente eu descobri um mundaréu de gente que sabe tanto, que me inspiram, que
são enciclopédias vivas, mas que se distanciam tanto daquilo que teorizam na
prática. Isso não é uma crítica, afinal cada um está fazendo o possível para
sobreviver e atravessar essa existência da melhor forma possível. Mas isso é um
agradecimento-lembrete: você me ensina os valores mais nobres, humanos e
humildes que poderia desejar aprender com alguém.
E além de tudo me ensina que a vida é movimento. Que nunca é
tarde para aprender, para mudar, para experimentar. E eu imagino que se de um
lado isso é libertador, também tem um peso enorme. Afinal, na sociedade do
controle e do lucro, ser uma mulher que ninguém consegue prever as reviravoltas
da vida, e ser tão distante dos hábitos consumistas e padronizantes, é quase
que "loucura”. Mas por favor, jura juradinho que toda vez que esse sussurro
soar no seu ouvido, você vai repetir para você mesma o quanto você é um exemplo
de trabalho, de luta e integridade.
Por fim, quero te contar o quanto tenho aprendido com você
nesse momento tão delicado, onde não bastasse a pandemia, você ganhou de presente
uma sogra que tornou-se quase 100% dependente de seus cuidados. Além de tudo,
antes da pandemia você se encorajou e depois de praticamente toda a vida adulta
longe de estudos, resolveu voltar a estudar. E encontrar novos papeis, e se
redescobrir profissionalmente. Como eu sou sortuda e grata por ter uma mulher
como você como mãe, como guia e referência! E como eu aprendo com você, com
tudo o que nos difere e nos assemelha.
Ser testemunha de uma mulher que a vida inteira se dedicou
aos outros, que a vida inteira também experimentou diferentes caminhos para
manter sua autonomia e contribuição financeira, e que, na casa dos 60 anos, têm
se realizado profissionalmente, é pra mim conquista nossa, de todas. Quando uma
mulher vence todas as opressões impostas e continua focada em seus objetivos,
ainda que a vida lhe coloque todos os obstáculos imagináveis no caminho, repito:
todas as mulheres vencem. Todas ganham um exemplo para se encorajar e se mirar.
Eu te amo, honro sua história, sua vida, e agradeço por cada
alegria e sofrimento que juntas, percorremos. Continuo lutando minhas batalhas
para, cada vez mais, honrar por tudo isso e entender que cada uma de nós
fazemos nossas escolhas e somos responsáveis pela narrativa de nossas vidas.
Sempre ouvi “mas ela não é sua amiga, ela é sua mãe, cuidado, são coisas
diferentes”. Hoje eu tenho certeza que estes papéis são construídos para causar
distanciamento e por eles muitas estruturas frágeis e falaciosas se sustentam.
Que todas as mães possam construir uma relação não só de mãe, mas companheira,
amiga, conselheira, tutora, mestra e, inclusive, aprendiz.
Ah, e pra quem não sabe: essa mãe incrível também é uma
profissional incrível, terapeuta da alma. Sabe quando precisamos de um cuidado
espiritual e não temos para onde correr? Fala com ela! @scheilapcamargo
Como assim ? Não havia visto esta postagem ! Ah ..já sei ... Ficou com receio que a emoção fosse grande demais né ?!!! Então ...ploft !!!! ♥️♥️♥️
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