30 anos desmanchando nós
Estou fazendo uma boneca muito especial, e agora chegou a parte mais trabalhosa da boneca: fazer o cabelo. Nas pontas dos pés faço a arriscada manobra cotidiana: pegar a cesta de lãs da última prateleira. Corpo inteiro esticado, as pontinhas dos dedos fazer o convite para a cesta escorregar, devagarinho, para minhas mãos. Há quem diga que sou preguiçosa "pegue um banquinho Janaina". Há quem diga que sou descuidada "você não liga se cair tudo?". Sempre há alguém pra dizer algo, né? Me falta coragem, ou tempo, ou interesse?, de perguntar para essas pessoas se elas conhecem essa sensação de esticar-se inteira, de sentir os tendões da batata da perna até os das falanges distais, e a curiosa sensação de perceber a respiração quase paralisante enquanto todo o corpo pulsa a atenção em manobras arriscadas, Ah, é isso: não quero ser mais uma pessoa das que sempre tem algo para dizer. Por isso tenho preferido viver minhas aventuras assim, eu comigo mesma, quando ninguém vê. ...