Problemas na equação da escola da vida

    Pisco os olhos, mais uma vez, com mais força, numa tentativa de assear a vista. Quando foi que tudo ficou tão amassado? O cisco de tempo que atrapalhou minha vista deve ser bem graúdo, isso sim, pois que meses se passaram e de repente estamos aqui, entre expectativa, alegria, ansiedade e algumas-muitas confusões e novidades, com pequenas pinceladas de angústia, medo... 

    As últimas semanas foram de pó, muito pó, para todo lado. Na minha expectativa seriam só alguns dias, dois ou três. Acertei no número, errei na perspectiva: três, sim, porém três semanas. E quando três dias viram 21 dias, a conta não fecha, porque o resultado deveria ser aquele exatamente calculado e planejado e manejado no calendário. Como que pintar 5 paredes se transformou em quebrar três para reparar infiltração? Como que o banheiro, enciumado da dedicação do pedreiro com os outros cômodos da casa, anunciou a sua birra, e só se deu por satisfeito depois de ter uma parede toda quebrada, seus canos renovados, e tudo novamente rebocado? Claro que o ateliê não quis ficar para traz e fez saltar, nas paredes texturizadas até então desapercebidas, bolhas e mais bolhas de infiltração, clamando por cuidados. 
 
    É bem perceptível que os desafios foram múltiplos, mas quero explicar a razão da conta não ter fechado. Fazem anos que minha vida assumiu o lugar de escola, cotidiana, orgânica, viva. A qualquer oportunidade, uma nova liçãozinha. Saudade dos tempos da escola de concreto, das lições impostas de fora. Eu reclamava mas tinha a escolha de, tantas vezes, ignorar a matéria ou o professor, faltar das aulas... Agora é assim, sendo a vida minha professora, minha consciência é aluna vigiada. Consigo, no máximo, dormir, e é bem verdade que as vezes mal durmo por conta de lições mais cabeludas, tipo esta que aqui estou relatando....
      
    E aí que aprendi, mais e mais uma vez: viver não cabe no calendário. Inventaram os dias para exigir de nós produtividade, para nos roubar a oportunidade da paz e da liberdade. Portanto o erro está no princípio da equação. Por mais que alterasse todas os fatores, não conseguiria chegar no resultado esperado. Impossível em três dias tudo ser feito, então que se fizesse com calma no tempo que fosse, experimentando apesar de tudo dias com paz e tranquilidade, aceitação. Mas cadê a liberdade para nos sentirmos em paz se saímos do controle e da produtividade? Posso me dar ao direito de ficar tranquila se faltam entre 8 e 12 semanas pra chegada do meu filhote? Afinal, estava tudo tão planejado, e agora? Como enfiar tudo o que planejei nos outros 19 dias nas semanas seguintes? 

    Confesso que nessa matéria da vida sou repetente. É difícil entender como eu desapego deste controle do tempo, da lógica de que temos que fazer render, estar com tudo de acordo com as metas, como se a vida fosse algo previsível e calculado. "Tempo é dinheiro", dizem. Dinheiro é calculado, e tentam fazer com que nossa vida também assim o seja. Ter a vida planejada, calculada, sistematizada virou premissa para paz e sossego. Meio paradoxal e embaraçoso isso para mim, talvez por isso minha repetência. Eita dificuldade de me enfiar dentro desses parâmetros e ter um bom rendimento da prova.
   
    Mas minha profissão, acompanhada das múltiplas experiências, me permite arriscar o argumento: quando um aluno repete, muitas vezes tem mais a ver com o professor do que com o aprendiz. Sempre tem aqueles professores que só querem impor suas verdades e exercer seu lugar de poder e opressão. Na matéria "tempo é dinheiro", sou repetente porque nela, a única coisa que aprendo com seu professor é sobre a importância da rebeldia. Há de se contestar certos conteúdos. Questionar algumas verdades. E lidar com as consequências quase sempre previstas: perseguição do professor, estafa mental, negativa nas provas. Mas este depoimento agora quer falar especificamente deste período, de três semanas... E das lições que queria compartilhar com todes, e não ao com você, Jorge.

    Finalmente a reforma acabou e os problemas matemáticos e emocionais foram equacionados. Três semanas de poeira, sujeira e móveis espalhados por todo lado. Três semanas quebrando a cabeça para aprender o melhor possível disso tudo, afinal das contas fazem 31 semanas que estou acompanhada de um bebê dentro de mim, crescendo e aprendendo a cada dia. Que nada! Na verdade, são nove anos, desde o primeiro dia que pisei numa sala de aula, que sou acompanhada de pessoas sempre atentas e sedentas por aprendizado. Fazendo o balanço geral, sigo satisfeita e feliz.. Lúcida dos privilégios que me permitiram chegar nesta autoconsciência de eterna aprendiz da vida. Aprendizado que nos permite descobrir, em qualquer trecho, dos floridos e claros aos escuros e lodosos, algo novo. 

    Por fim, meu querido filho, não vi essas três semanas passarem. Você me viu lavando o rosto várias vezes tentando tirar o cisco-gigante que caiu na vista da mamãe. Não vi as coisas direito, estava tudo embaraçoso. Mas sei que você está aprendendo comigo. Me anima pensar que, apesar de tudo, desde já você está aprendendo da vida esta escola cheia de aprendizados e engrandecimento.

    E agradeço por você ter me escolhido (bem com todos os alunos que já tive), para ser sua tutora e ao mesmo tempo, aprendiz. Não tenho dúvidas que teremos uma escola da vida muito interessante e prazerosa. Além do mais, estamos numa boa trinca: o papai é mestre, sabia? Diplomado e tudo, especialista na arte de simplificar os problemas de percurso. 

    Saudações carinhosas de uma manhã tranquila, após 21 dias de turbulência. 
    Mamãe 




Comentários

  1. Meu DEUSINHO .... Gratidão imensa pela oportunidade que me concedeu em dar vida a esta lindeza. Você é demais minha filha. Feliz do Jorge que escolheu você e o papai Rodrigo para vir abençoar. Amo demais da conta. ♥️♥️♥️

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